1.
Não é segredo para ninguém, a menos que seja, que todas as palavras das línguas latinas modernas que se referem ao «nada» — seja o espanhol «nada», seja o francês «néant», seja o italiano «niente» — têm por origem a ideia de:
(i) «não-nascido», vindo da expressão latina «[nulla res] nata», ou de
(ii) «o-que-não-é-gente» no sentido de «o-que-não-é-ou-não-foi-gerado», vindo também de uma expressão latina, no caso, seja por meio de «ne gentem», seja por meio de «nec entem».
2.
«E daí?», diria Jair.
Bem, e daí que se começarmos a pensar em «o que é que não-nasceu», em «o que não-teve-nascimento», em «o que não foi nem sequer gerado (a bom termo)», teremos dificuldade para encontrar «coisas» que correspondam a essas ideias ou noções.
O que há neste «pálido ponto azul» nosso, o planeta Terra, que não tenha nascido ou não tenha sido em algum momento gerado? Mesmo quando pensamos nas gerações necessárias para que o fenômeno do vulcanismo gere rochas, pedras e, por erosão, areia, insisto: o que há debaixo-do-céu-azul que não tenha sido-gerado?
Mesmo para-além deste mesmo céu-azul-quando-dia ou céu-escuro-quando-noite sabemos que vivemos numa via-ou-caminho-de-leite compostos por centenas de bilhões de sóis.
E esses sóis, de onde vieram?
3.
Mesmo as estrelas, e seus sistemas estelares; mesmo as galáxias, e seus sistemas galá(c)ticos; mesmo àquilo-que-chamamos-universo, tudo isso é dito, por metáfora ou não, ter-sido-gerado ou pelo menos ter-tido-seu-nascimento.
Falamos do nascimento-do-sol enquanto nascer-do-dia, falamos do nascimento da estrela sobre a qual revolvemos e sobre (e sob) a qual nos revoltamos em revoluções-ou-voltas e mais revoluções-e-revoltas sem fim…
Falamos sobre o nascimento do caminho-de-leite ou das galácticas galáxias de leite como tendo seu nascimento…
Falamos até sobre «o nascimento do cosmos ou da ordem-das-coisas». A ciência mesma geme e clama sobre «o nascimento do universo!»
4.
Portanto, meus caros, o «e daí?» é que poderíamos ou deveríamos nos perguntar ainda outra vez sobre o que é que «não teve nascimento». O que é que «não veio-a-ser».
E a esta pergunta só nos resta dizer alguns nomes como «Uno», «Bem», ou «Belo», ou seja, tudo aquilo que poderíamos dizer que está «para além-do-nascer», «para além-do-aparecer», «para além-do-ser» — exatamente aquilo que Platão um dia cogitou ser o que há de mais fundamental, aquilo que se pode dizer «epekeina tes ousias», isto é, um «para-além» que só pode ser nomeável e nomeado por meio de sinônimos, e também de símiles, como o símile do Sol em «República» (509b).
5.
Donde, se a ideia de Deus, dessa palavra latina, deriva originariamente da ideia do lexema grego «Zeus», talvez devéssemos nos auto-acusar de «ateísmo», assim como os atenienses acusaram Sócrates, o ímpio, ou como os romanos acusavam os primeiros cristãos, os-ímpios-em-relação-aos-deuses-da-cidade-ou-civilização-de-Roma (sim, sim, a Babilônia do livro da «Revelação», aquele «rolo» todo escrito na ilha grega de Patmos).
Ser «ateu» e dizer «Deus não existe!» porque Deus-Pai nada é, porque Deus-Pai não é nascido ou nato… porque, de novo, raios me partam, dizer «Deus Pai não nasceu» pode ser uma boa e santa prática diária «sim!»
Repito, «uma boa e santa prática diária» para «o crente que sabe dar as razões de sua fé e também defendê-la», mesmo que num primeiro momento possa haver um aparente choque — e raios nos partam! — com uma simples meditação sobre língua, linguagem, e palavras e suas origens.
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NB: Para usar uma fonte de referência qualquer, só por preguiça, cá está.
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Dedicado a André Gomes Quirino, Duanne de Oliveira Ribeiro, Lucas Nascimento Machado, Ricardo Marques da Silva e Mírian Macedo, a qual, pelo que acabo de descobrir um tanto atrasado, não foi torturada durante a ditadura (WTF, Mírian?).
E dedicado só porque vocês me aturaram por mais de ano naquele grupo de zap. E, não, não vou marcá-los para que não passem vergonha comigo. Quer dizer, pelo menos um pouco de vergonha haverá, afinal mencionei seus nomes em agradecimento no começo do parágrafo anterior.
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